terça-feira, 26 de novembro de 2013

Críticas a Mim Mesma [PARTE I] - A Escrita

Faz tempo que não escrevo. Sim, há uma postagem recente, mas a data de publicação não revela a data de criação, só revela quando eu decidi tornar público. É bom lembrarem disso.

Escrever sempre foi uma terapia para mim. Talvez por eu ser uma pessoa muito tímida, não conseguia me abrir com as pessoas e tinha um certo receio de alguma aproximação, vi na escrita e na leitura o passaporte para minha liberdade e independência: eu poderia aprender várias coisas sem precisar ter contato direto com pessoas e poderia criar e falar o que eu quisesse sem ser interrompida ou criticada. Pessoas tímidas morrem de medo de serem criticadas...

Não escrevo por ser uma pessoa super criativa. Escrevo porque preciso colocar alguns sentimentos para fora. Algumas vezes em forma de poema, outras em forma de conto, às vezes em forma de roteiro, mas quem vence são as crônicas: são mais diretas, mais claras, não tem entrelinhas.

Sinto saudade de escrever poemas ou contos porque me remete a uma época mais simples da minha vida, onde eu não era responsável pelos meus atos, em que eu era mais jovem, com mais expectativas, mais sonhadora, mais medrosa e, consequentemente, mais misteriosa. Eu inventava artifícios e jogos de palavras para expressar sentimentos e ideias que não ficassem tão claros, pois morria de medo de um sentimento ser expressado claramente e as pessoas o criticarem. Com mistério eu pelo menos teria dos outros o benefício da dúvida, se eu era uma pessoa muito profunda e sábia ou só uma louca que tem sentimentos e ideias absurdas. Eu me escondia atrás do lápis, atrás das folhas.

Hoje eu não me importo em escrever o que sinto. Porque aprendi que críticas fazem parte e que não escrevo para ter aprovação dos outros, mas sim para ter minha aprovação, para me entender melhor, reler o que escrevi e pensar "mandei bem, que orgulho, quero ser você quando eu crescer!" ou "que porcaria, eu devo estar com algum problema mais grave para ter escrito uma idiotice dessas".

Sim, com o tempo algumas preocupações deixam de ser o fim do mundo. Meu ego de me fazer entender para ter aprovação dos outros foi diminuindo e consequentemente a minha timidez também. Mas sei que quando eu precisar, a Escrita estará aqui... E esses dias eu precisei.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Melhores2 Amigos2

Noto que há muitas dicas como estas (clique AQUI para ler) borbulhando por aí. Bah, com tantas dicas na internet, revistas, televisão e tudo o mais as pessoas não aprenderam ainda a serem felizes com seus cônjuges? Fora as dicas que diz que “todo homem gosta de...” ou “toda mulher odeia...” e que generalizam os gêneros, o que vemos são dicas sugerindo mais intimidade.

Não me incomoda ver as pessoas tendo noção de que um casal precisa ter intimidade, cumplicidade, ser melhores amigos... Mas me incomoda ainda terem que dar dicas disso para um relacionamento sério! Afff! Ser amigo da pessoa é fundamental para querer dividir sua vida com ela! Imagina dividir sua única existência na Terra com alguém que você não conta segredos, não se abre, trata como se fosse uma relação formal... Imagina ter um filho, uma criatura que será criada e educada por uma pessoa, com quem você não confia tanto assim para se mostrar de verdade.

É, você não conta seu maior sonho para ela, pois pensa que ela acabará estragando-o ou debochando dele, mas confia a vida de um ser humano nas mãos de alguém que pensa que poderá estragar seus sonhos. Mas, bah... A vida de um ser humano não tá valendo nem um sonho, hein!? Tá baratinho a vida de um ser humano!

Uma cambada de gente tem amizades de mais de 20 anos! Então não me venham com lero-lero de que é assim mesmo, as relações esfriam e não há nada que se possa fazer, a rotina estraga relações, os deveres nos distanciam e bla bla bla! Se uma amizade  pode sobre sobreviver a isso o que dirá de uma amizade que mora com você!

Ah, mas é esse o problema... Muitos casais não são amigos. Atuam numa discussão, atuam na frente dos outros, atuam até na cama! Não são sinceros um com o outro.

“Ah, mas tu acha que o parceiro tem que contar tudo pro outro?”

Sim, ué! Tá com medo de quê? Quem não deve não teme e você SABE muito bem que se não quer contar é porque alguma coisa teme. O que é? Você é procurado pela polícia em dezessete estados?  É tão grave assim, meu Deus? Que foi? Teu universo é tão desinteressante a ponto de querer poupá-lo de ouvir o tédio que é você? Ué, mas não é o que você faz com seus melhores amigos? Como assim “é diferente”? Então o seu cônjuge não é um dos seus melhores amigos? Você perdeu o juízo de dividir sua casa com alguém qualquer que você dorme, divide umas contas, uns filmes quando não tem nada para fazer e nada mais? Ei, pessoa, você está num relacionamento por pressão social! Seja bem-vinda! Não, na verdade, não seja bem-vinda. Nem fique! Caia fora! Xô, galinha!

Essa pressão acontece de maneira básica: Tu se apaixona pela criatura, mas não quer perdê-la. Num ato falho diz que a ama. Vai que com o passar do tempo você acredite que ama mesmo, né? Se der certo, deu. Se não, fodeu. E se não der certo quatro vezes, four-deu.

E pior, se você disse “eu te amo” forçado, não tem como voltar atrás. Agora é só seguir em frente e rezar para que seu cônjuge não descubra essa vergonha que é ser um ser dotado de dúvidas, questionamentos, medos e erros... Um ser humano igual a ele, veja só! Deus te livre disso, né, amigo? Imagina! Você amaldiçoou o amor, agora terá que pagar com saaaaaaangue!! MUAHAUHAUHAUHAUHUAHUAHUAHUHAUHAUHA!

“Ai, não é assim também, Érica... Não exagera!”

Ah, claro que não. Mas a maioria que conheço decidiu “dar uma chance porque essa pessoa me ama e é legal comigo, então vai que... né?”.
Né?

Né que as pessoas estão num relacionamento só porque o outro quis. Porque elas tentaram conversar sobre não apressar e receberam um “então adeus”. E como casar e ter filhos é um curso natural da vida, então... né? Ah, que custa... Vamos ver no que dá.

Veja bem, não estou dizendo que as pessoas têm que ter medo da vida e esperar “o príncipe encantado” ou “a princesa real”, mas vamos combinar que quando você ama alguém você não tem medo! Pense em todas as pessoas que você ama, todas! Então, você se sente seguro com eles? Então por que não se sente seguro com seu cônjuge?

Não tenha medo de voltar atrás. Não diga “sim” como se estivesse no altar para oferecer sacrifício. Não pense que você é tão desprezível que seu cônjuge não merece te conhecer melhor. E não, você não é uma má pessoa por sonhar e imaginar como será o futuro de vocês. Todos que estão apaixonados fazem isso. Às vezes fazemos isso até com amigos! Imaginamos como seriam nossas vidas com essas pessoas... Então, não, se você voltar atrás você não estará traindo seu cônjuge, nem abandonando seus filhos que nem nasceram, nem largando o alto cargo que você sonhou que teria no futuro. Imaginar possibilidades e falar delas é humano. Vai na fé. Não se apegue ao “se eu tivesse tido filhos, como seriam, onde estaríamos morando agora, o que teríamos construído juntos?” que eu sei que você não chuta o balde por causa dessa psicologia barata. Nenhum amigo se ofenderia diante de tais possibilidades.

Aliás, é só reparar que não chove tantas dicas assim para a amizade. “20 dicas para manter a amizade”, “7 coisas que esfriam a amizade depois de um tempo”. Bem, claro que algumas amizades acabam se desfazendo, mas as empresas não lucram com algo que não nos disseram que era para sempre. Nossa decepção e procura por ajuda sobre relacionamento amoroso é justamente porque há toda uma mentira em torno disso: é sublime, é eterno, um completa o outro, esse é o sentido da vida e quem não sente isso está desperdiçando e jogando a vida fora, não está fazendo história na Terra, é um amontoado de células, um lixo humano que não conhece a felicidade e tem medo de viver um grande amor porque é covarde, fraco e... Bitch, please! Começou com uma coisa sublime e terminou te chamando de lixo só porque você não acreditou nesse lero-lero. As pessoas ficam hostis quando você sugere que a vida delas é baseada em argumentos falhos:
1.Ninguém completa ninguém: Não somos incompletos e por isso não precisamos de alguém totalmente oposto para que nossa vida seja equilibrada. Lembre-se de algo que você odeia no seu cônjuge e veja que isso não te agrega nem te completa em nada!

2
Parabéns, você é o único ser humano que conseguiu desvendar o sentido da vida! Fome, violência, tristezas e todas essas coisas não existiriam se as pessoas casassem! Tem mais é que sofrer mesmo! Como ousam desafiar o sentido da vida? Pfff!

3. Faça história na Terra! Case e tenha filhos e viva em função disso! Passe seus genes adiante! Deixe os problemas sociais para pessoas desocupadas e mal amadas que nunca encontraram o amor e estão perdidas por aí, usando sua solteirice para pensar... Lembre-se: Quem pensa, não casa!

4. Não seja covarde, fraco! Mergulhe de cabeça num relacionamento e diga que ama seu parceiro mesmo que não o ame! Você precisa viver esse graaaande amooooor... Deixa de ser maricas!

Pois é, não existem tantas dicas assim para amizade porque amigos se respeitam muito mais que um relacionamento “imposto”.  Se um casal não é amigo, nem todas as dicas do mundo vão ajudar.

Eu já ouvi gente dizer “eu te amo, mas não tenho obrigação de falar contigo todos os dias”! Só que falava com os mesmos amigos todos os dias. Então a desculpa do mau humor não é válida. Se você trata com grosseria as pessoas só porque está de mau humor, então você vai tratar todas as pessoas de maneira grosseira, uma vez que depende unicamente do seu humor. Não vai ficar escolhendo a vítima. Se você a escolhe é porque você está descontando alguma frustração que tem com ela, mas que não tem coragem de dizer.

Eu já ouvi gente dizer que ama sim a outra pessoa, que ela é a razão da vida dela e tal...

Tenho duas coisas a dizer sobre isso. A primeira é que essa linda frase já foi dita por vários assassinos que disseram isso e, se a vítima aceitou, ele foi um doce... Mas que se ela recusou ele disse horrores para a coitada. A segunda é que se fosse realmente a razão da sua vida, você não teria pensado que outra coisa era mais importante. Ama a pessoa com todas as forças, morreria por ela, iria até o fim do mundo por ela... Mas não iria até a cozinha levar o copo que sujou. Menos hipocrisia que essa não cola e quando cola é por pura pressão de “ah, mas dê outra chance, ele é tão legal”...

Hahahahahaha! A gente não casa com as pessoas só porque são legais! Se não eu estaria casada com minhas amigas de escola, meus amigos de infância, meus colegas de curso... Não temos obrigação nenhuma de darmos chance só porque a pessoa é legal ou boazinha. Se fosse tão legal assim não teria sido alvo da nossa rejeição alguma vez.

Mas ai da gente se não dermos uma segunda chance. Aí nós somos radicais, pessoas más e cruéis que não se deve confiar. É, nós é que somos as pessoas que não se devem confiar não quem mentiu que te amava ou que ficou com você por pressão ou pena. É, como somos pessoas más...

O engraçado mesmo é que quando tu sugere terminar o relacionamento, tudo aquilo que a outra pessoa defendia como a mais pura e imutável verdade absoluta do universo, de repente pode ser mudado. Ah, por favor! Esse papinho de perdoar o outro porque a pessoa é mais importante do que estar certo não cola. Se a pessoa quer viver num mundo enclausurado onde o companheiro não pode ter voz porque vai ficar magoada, azar! Quem tá certo, tá certo. Lide com isso! Amigos de anos e anos lidam com isso... Ah, esqueci! Vocês não são melhores amigos, né? Ah, tá, podem se matar então ou fingir que está com a pessoa porque ama muito ela (apesar de ela não ser sua melhor amiga rsrs).

Fica uma reflexão que certa vez eu disse para uma pessoa:

“Tu falaria isso que tu tá me falando nesse tom para tua mãe [figura que a pessoa respeitava muito]? Respeito é para todo mundo, não para um tipo de relacionamento. Se tu não falaria isso para ela por respeito, o que eu devo pensar quando tu fala isso para mim? Que tu não me respeita?”


Regra básica! Não tem essa de namorado x amigo. A pessoa que você está TEM que ser sua melhor amiga! Se não for, não comece um relacionamento nem diga que a ama. Vá ser feliz e para de avacalhar com a sua vida e com a do outro.

domingo, 24 de novembro de 2013

Sobre Boas Intenções...

“A amorosidade sem competência é mera boa intenção” (Mário Sérgio Cortella)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Infância - O bonzinho e O mauzinho

Geralmente pais não ensinam que as pessoas mudam. Eles ensinam que as pessoas crescem, mas não que mudam. Ensinam que o fulano é bom e beltrano é mal. Ensinam as crianças a ignorar quem as faz mal e manter por perto quem as faz bem com a frase “ame quem te ama” que é tão difundida quanto equivocada, pois:
1. Se alguém está dizendo quem você tem que amar, já deixa de ter algo fundamental para que seja amor: liberdade.
2. A frase te conforta com o amor de alguém que já te ama e te ordena a amar igualmente esse alguém. Para quê amar pessoas estranhas? Fique no seu mundinho que vai ficar tudo bem.
3. É contraditório, pois se você ama alguém, esse alguém terá que te amar, porque você o ama e ele tem que amar quem ama ele. Mas você não pode amá-lo porque você só pode amar quem te ama e ele não te ama. Então nem perca tempo investindo.

E ainda dizem que isso é amor verdadeiro. Isso é simplista, uma falsa dicotomia: verdadeiro ou falso. Claro, isso se tratando de pessoas. Pessoas são mutáveis!

Pais não costumam ensinar as crianças que pessoas mudam, mas ensinam quem são os bons e os maus como se já conhecessem todas as complexidades de todas as pessoas do mundo! Surgem com o discurso de que “eu tenho o dobro/triplo na sua idade e sei de tudo, seu pirralho”, inconscientemente, obrigando o filho a depender de uma única fonte de sabedoria. Ou aquele outro discurso de “não interessa, eu que mando” ensinado-o a não questionar uma autoridade, seguir uma hierarquia, mesmo que não faça sentido. É sério que tem pai que quer isso para o filho? Um ignorante que não questiona só porque é uma autoridade?

Isso resulta na incapacidade das crianças de analisarem mais friamente as pessoas, entendê-las e não julgá-las. O dicionário tem muitas páginas por algum motivo: Está cheio de palavras que definem as coisas. Deixe-me dar um exemplo:

Chamam uma pessoa que foi pega na mentira de mentirosa, mas todas as pessoas mentem, nem que seja para encobrir uma festa surpresa. Não há como definir mentirosos de verdade dos mentirosos de mentira porque a mentira é uma ação, não uma característica. Ninguém nasce mentiroso ou é mentiroso 24h por dia. Mas então por que as pessoas mentem? Pensando nas diversas respostas possíveis notaremos uma coisa em comum entre elas: medo.

Ou seja, há uma palavra para definir a atitude dessa pessoa. Ela não é má, mentirosa, serpente, naja, maquiavélica... Ela só está com medo e, no máximo, tem baixa autoestima o suficiente para acreditar que a verdade nunca será o bastante.

Ou chamar uma pessoa que não está satisfeita com a vida que tem e aspira por mais de interesseira.

Sem delongas a cerca de exemplos (penso que a ideia já ficou clara), não existe pessoas imutáveis. Mas as pessoas sempre quererem tachar algo de mau, sempre querem inventar mais um termo pejorativo, já não bastasse os tantos que conhecemos. Parece que nunca estão satisfeitas com o ódio que têm que precisam criar novas formas de odiar.

Há uma quantidade absurda de jovens que têm medo de mudarem de ideia porque isso significaria “trair seus princípios” (não é como se um jovem tivesse certezas absolutas a ponto de pensar que é possível “se trair”), pois apenas coisas podem ser mudadas, atualizadas e descartadas. E a realidade é bem outra: pessoas chegam de um jeito, se transformam e partem de outro jeito. E devemos deixá-las partir sem rancor, sem apego, sem chantagens.

Essa ideia de que pessoas são imutáveis faz com que os jovens entrem em conflito consigo mesmos, pois até ontem estava definido que eles eram crianças boazinhas e, do nada, precisam lidar com uma nova definição: “aborrecentes”. Mas eles não foram educados para lidarem com novas definições ao mesmo tempo em que foram educados para aceitarem definições simplistas. Então ficam naquele dilema de tentar provar que ainda se encaixam na definição de bonzinhos ao mesmo tempo em que não existem flexibilidade e complexidade nas definições e se estão dizendo que todo adolescente é pentelho, então deve ser.


Não são os jovens que naturalmente fazem besteiras. São os pais que os ensinam que jovens só fazem besteira porque no momento em que isso fica pré-estabelecido, os pais não precisam mudar em nada seu modelo de educação. Alguns, inclusive, se ofendem com essa sugestão, esquecendo que são pessoas suscetíveis a erros também. Se colocam num pedestal para que não sejam refutados pelos filhos e dizem que é natural.

Ao contrário do que dizem, pais e filhos não são “todos iguais, só muda o endereço”. Os modelos de educação é que são “todos iguais, só muda o endereço”. Então é só mudar esse modelo.

A não ser, é claro, que se ache normal adultos vivendo intrigas e estresses, tentando, incansavelmente, se provar a todo instante, se apegando cada vez mais às suas próprias ignorâncias, não solucionado os problemas, mas naturalizando-os para que ninguém conteste suas infelicidades.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Infância - Fase Provisória?

Um grande erro dos pais/responsáveis é não ensinar os filhos a discursarem, argumentarem e contra-argumentarem, nem a olharem os dois lados de uma moeda. Porque é rápido, prático e uma medida provisória, eu entendo. Mas há um “porém”.
Sabendo que um ser humano absorve tudo durante a infância, como uma esponja nova, e depois trabalha apenas com o material já absorvido, como que uma fase de desenvolvimento pode ser encarada como provisória?
Muitos pais bem intencionados pregam a juventude como provisória: Pais que não querem um filho com síndrome de Peter Pan, já começam a nos dizer para aproveitarmos esse tempo bom que não volta NUNCA MAIS porque depois virá o “resto da sua vida”, a fase das obrigações. Ou seja, eles mesmos colocam um véu entre uma fase e outra e dizendo que a fase de obrigações é a definitiva (“o resto da sua vida”) e a infância provisória. O resultado desse discurso difundido? Adultos frustrados, insatisfeitos com suas vidas porque aprenderam que o tempo de sonhar deles, já passou. Agora é fazer ou não fazer e tem que acertar de primeira porque o mundo é injusto, cruel, sujo... Quase a casa do capiroto!
Alguns até dizem que é coisa da idade, numa tentativa de naturalizar a situação, a fim de tirarem de si mesmos a responsabilidade de sua incompetência. Quantos de nós já dissemos (e ouvimos) que queríamos ajudar os animais de rua, montar um abrigo para pobres, fundar uma ONG e até agora nada, nem sabemos por onde começar? Imaginem se todas essas pessoas com boas intenções tivessem atitude, conhecimento, empatia! Não é coincidência demais termos esses desejos vivos nos nossos corações, mas não termos tido nenhum conhecimento ou nenhuma lembrança de visitas regulares à asilos, orfanatos ou abrigos durante a infância? Não é coincidência demais termos desejos de revolução em nossos corações, mas não termos nenhum conhecimento ou nenhuma lembrança de conversas sobre a política no país durante nossa "fase provisória", onde o lazer é prioridade e nossas únicas obrigações são os deveres de casa, não aprendendo nada sobre os deveres para com a sociedade?
E quem ainda pensar que essa crítica à "fase provisória" é exagerada pode sempre se perguntar por que, mesmo com tantas pessoas de bem, o mundo anda tão mal.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Goosfraba

A primeira vez que vi o filme “Tratamento de Choque” foi quando eu tinha 12 ou 13 anos e apesar de algumas cenas engraçadas, no final dele fiquei com aquela sensação de “que perda de tempo, o personagem não precisava passar por esse estresse todo”.

Não vou me delongar sobre filmes em particular, mas sobre esses tratamentos e minha visão antiga e atual sobre isso, só para comparar e deixar registrada minhas mudanças, afinal, meu blog não é de críticas de cinema, né? Rsrs.

Sempre parti do princípio que ninguém é burro, incompetente ou incapaz de entender alguma coisa, então sempre fui sincera e odiava quando alguém tentava me enganar. Aliás, eu raramente respondia as provocações de colegas do ensino fundamental, porque as provocações geralmente eram irracionais e as respostas sempre eram bobinhas, não eram SINCERAS, eram apenas insultos sem base. Mas não, eu não era uma coxinha. Meu soco e meu chute eram bem sinceros também naqueles guris babacas!

Com o tempo, comecei a deixar de lado os socos e chutes. Não pelo discurso de “isso não é coisa de menina” que, graças a Deus, nunca ouvi dos meus pais ou, pelo menos, não nessa situação, mas por ouvir dos meus pais “Érica, isso não resolve nada”. E não resolveria mesmo. Meus colegas iriam continuar zoando meu jeito de andar, minhas pernas peludas que minha mãe não me deixava depilar porque achava que eu ainda era muito criança para isso, meu cabelo, as roupas que eu usava do meu irmão que não serviam mais nele, meus óculos e sabe-se lá mais o quê... Então o que estava ao meu alcance era aceitar que eles, por algum motivo, eram babacas e deixar pra lá.

Recapitulando: diante de poucas pancadarias já ouvi dizerem que eu era nervosa. E depois eu realmente não dei mais bola para as provocações. Mas ninguém muda da água para o vinho e eu ainda me importava com certas provocações, mas não reagia. Há uma diferença entre não se importar por estar seguro de si e se importar, mas não poder revidar. E é disso que trata o filme Tratamento de Choque.

Na época eu achava injusto o personagem que não levantava a voz nem para uma mosca ser tachado de nervoso por um doutor que “promovia” a raiva do personagem. Qualquer um perderia a cabeça! E no final, quando o personagem finalmente se assumiu como um cara nervoso, eu subi pelas paredes! Como assim? Ele estava vestindo a carapuça? O doutor deixou o cara louco para depois ele se acalmar e dizer que o doutor estava certo? Que loucura!

Ainda acho loucura. Há métodos menos agressivos. Eu sempre disse que as pessoas devem aprender as possíveis consequências de seus atos, mas isso não quer dizer que devam receber quaisquer consequências mesmo porque algumas consequências são dependentes de ideias e ideias de pessoas. E consequências reais não dependem de um avaliador ou de um juiz, mas unicamente da situação em si.

Por isso o personagem não precisaria sofrer consequências desnecessárias. É ridículo alguém achar que pode controlar as ações de outra pessoa, pois pessoas são imprevisíveis! Às vezes você faz algo a uma pessoa esperando uma reação e recebe outra que você nem imaginava. Então não é seguro para nenhuma das partes envolvidas. Pode ser até traumático! Mas...

Semana retrasada assisti ao filme novamente. E dessa vez reconheci a mensagem. Reconheci, pois já havia conhecido ela na vida real.

O personagem sofria por não refutar essas consequências desnecessárias. Então nada mais sensato que encará-las.

Uma coisa que pude perceber com o entendimento que hoje tenho eram as batidas com os pés do personagem. Era um sinal de nervosismo. Ou seja, ele falava baixo, era paciente, não brigava, mas estava nervoso por dentro. E ele não brigava porque não se importava ou porque era maduro demais para brigar... Não! Ele não brigava porque tinha medo!

Se ele não brigasse por estar seguro de si, tudo bem, mas não era o caso. O caso não era brigar ou não. Era se amar ou não. Acho que eu estava mais focada no doutor peculiar do que no personagem que é socialmente aceito por ser “bonzinho” que não havia reparado nisso. Mas como ele mesmo diz no final, ele era, sim, nervoso. Nervoso por dentro! Nervoso porque não tinha coragem de refutar essas “consequências”, porque deixava que os outros o tratassem como lixo! Então a partir daquele momento, ele não se deixaria ser usado por mais ninguém e nem aguentaria calado um exploração. Eeeeeeee!

Como eu disse, reconheci a mensagem por tê-la conhecido na vida real! Antigamente eu revidava de forma a mostrar que estavam errados, ou seja, para “parecer” alguma coisa. Depois eu comecei a aceitar muita coisa quieta, não revidava, como o personagem. Depois não aceitava as coisas quietas, porque eu simplesmente não me importava mais com o que pensavam ou deixavam de pensar de mim. Nessa fase de indiferença, notei que muita gente se aproveitou de mim para me tratar do jeito que bem entendesse e eu, como o personagem, chegou ao seu limite e chutou o balde. E hoje não deixo ninguém me tratar mais como lixo também.

O engraçado é que vejo gente dizendo que ando radical hoje em dia. Não acho. Só deixo para lá pessoas que não me respeitam. Podem ter o defeito que for, mas se o defeito for a falta de respeito, aí “não passarão”. Às vezes posso acabar sendo injusta por cortar relações, não ser mais tão paciente... Mas essas pessoas não precisam do meu julgamento para serem felizes. Não sou ninguém para dizer o que elas merecem ou deixam de merecer. Não sou o doutor do filme. Sou o paciente. Só posso dizer o que EU mereço ou deixo de merecer. E eu não mereço mais ser palhaça dos outros.

domingo, 15 de setembro de 2013

Água Calma tem Jacaré

Sair chutando o pau da barraca é uma forma de demonstrar um sentimento. Quem chuta o balde por qualquer coisa, quem tem um temperamento explosivo, não sente mais que o outro. Apenas demonstra de forma diferente.
Sempre me gabei por ser o tipo de pessoa que sofre em silêncio, não se vitimiza. E fiquei surpresa ao constatar que algumas pessoas pensavam justamente o contrário de mim. Achavam que quando eu me silenciava, me vitimizava, me fazia de coitadinha, de boazinha que não reclamava.

Um dia, eu estava na fila da padaria e uma avó que estava com sua neta de no máximo três anos brigava com ela. Ela estava tentando se arranhar de frustração, mas não tinha força então mal conseguia se apertar com suas mãozinhas. A avó dizia "diz o que está te incomodando". Como a criança não respondeu, ela olhou para mim e disse "uma moça no corredor de massas, disse que ela é comportada e quietinha, mas eu prefiro que ela faça barraco, xingue, chore e coloque logo a frustração para fora do que ficar aí, remoendo a frustração, quieta a gente não sabe o que se passa na cabeça dela e daí não tem como a gente ajudar".

Achei interessante o ponto de vista. Me fez perceber que as coisas não são binárias. E que não havia motivo para eu me gabar e me incomodar com pessoas mais temperamentais e nem elas tinham motivos para se incomodar comigo.

Continuo sendo uma pessoa quieta e, para combinar com o meu temperamento, agora mais tolerante.