sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Chuva de Sorvete

E todos queriam sair, pular,
correr, se libertar.
Estavam descansando em águas azuis.
Águas limpidas, águas frescas.
E isso era errado?
Ver as pessoas passarem,
sentadas nas paradas.

E chovia sorvete naquele dia.
O tempo indicava calor,
mas todos estavam gelados.
Como num circulo: ora quente, ora frio.

E a Terra girava.
E as pessoas lá dentro giravam por consequencia.
E assim como era normal para a Terra,
não era normal para eles.

Cada egoísta no seu caminho,
cada grupo acorrentado.
Cada passo dado fora da estrada indicava apocalipse.
Cada passo errado era um tempo sem tempo.

Cada giro era normal.
Cada passo anormal.
Cada inverno era um inferno.
E cada calor infernal era um paraíso tropical.

Não havia nada de fenomenal.
E a ignorância pura era normal.
Não havia capacidade de mudança.
Não havia inteligencia para se ter esperança.

Só havia nuvens.
Nuvens de sorvete.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Sopa

Aquela que tem como inicial a ligação com os outros. Aquela que foi formada e preparada pelas pessoas que a esperavam... Pelas pessoas que a amam. Aquela que pode ser ácido quando o início e as ligações são diferentes. Mas ela não reclama. Cada vez que se perde nas ligações, tudo começa a ficar mais claro. Letras embaralhadas de repente passam a fazer sentido. E fica mais fácil separá-las. Quem diria que é na bagunça que conseguimos organizar? Estando sempre oculta, embaralhada, esperando para saber o sentido naquela confusão. Quem é de fora entende o que deve ser feito e quer participar, e tenta, tenta... E quem está por dentro tanto faz. Acho que se acostumou. Ou realmente é uma vida “tanto faz”. Se está claro para os outros, está claro seu sentido: passar uma mensagem pronta. Se está embaralhado o sentido é achar sentidos. Ela quer um sentido diferente sendo que já possui um. Quer sempre ter um sentido. Mas sua maior alegria é saber que ela dá sentido as coisas, e seja lá para onde for, ela sempre terá um sentido para dar e receber. O sentido dela é dar mais um sentido.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Importante

Sinto falta da sua sinceridade, mas não da grosseria.

Sinto falta da sua indignação com a humanidade, mas não do seu genocídio.

Sinto falta das suas piadas, mas não do seu tom irônico.

Sinto falta de quando deixa subentendido no seu jeito de falar, mas não quando faz isso comumente.

Sinto falta de como consegue se manter sério, mas não de quando não expressa emoção.

Sinto falta de como brinca com tudo, mas não do desinteresse.

Sinto falta de quando não se preocupa, mas não de quando se esquece.

Sinto falta de quando finge que não é importante, mas não quando quer que eu
acredite que tudo o que eu sinto falta, de fato, não é importante.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Concentração

Estava lendo um livro. De repente, algo na fala dos personagens me fez parar e pensar. Pensei tanta coisa que cansei e decidi que pensaria mais a respeito quando acordasse. Quando percebi que estava acordada me levantei e quis voltar a pensar nos assuntos que tinham corrido velozes na minha cabeça. Estava ansiosa. Como se agora eu estivesse disposta para achar algumas respostas. Estava ainda sonolenta e sempre quando acordo, ouço tudo muito mais alto, como se o sentido da audição estivesse mais aguçado. Penso se essa não seria uma das ressacas que eu sentiria se bebesse, só que sem a dor de cabeça, só o som alto. Minha mãe liga o rádio na sala. Não consigo me concentrar nos meus pensamentos. Tudo muito alto. Tento achar um jeito de me ouvir, tento ficar em silêncio, tento cobrir os ouvidos e por fim pego meu estetoscópio e coloco em mim para não pegar nenhum som, só o do coração. Tento me concentrar, mas a cada respiração ouço a roçar que minha blusa de lã faz no aparelho. Não sei qual é o pior: escutar o rádio ou o roçar da blusa dez vezes mais alto no meu ouvido!

Desisto. Começo a praguejar e minha mãe desliga o rádio. Volto querer a pensar em algo que nem sei bem o que é.

Faço parênteses nas partes que acho importante no livro. Anoto as páginas para não esquecer.

E eu nem tinha lido tudo.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Trechos do livro “O Profeta”

"Que aquilo que parece o mais fraco e desorientado em vós é, na realidade, o mais forte e decidido."

"Pois muitas de minhas flechas partiam do meu arco à procura de meu próprio coração."

"Como vos teria podido ver a não ser de grandes alturas ou de grandes distâncias?
Como pode alguém estar perto se não estiver longe?"

"Na verdade, a bondade que se mira num espelho converte-se em pedra.
E uma boa ação que se admira a si própria vira maldição."

"Que toda vez que venho à fonte para beber, encontro a própria água sedenta;
E ela me bebe enquanto a bebo."

"E com um coração mais fecundado e lábios mais obedientes à voz do espírito, falar-vos-ei de novo."

"Nunca a aurora nos encontra onde o poente nos deixou.
Mesmo quando a terra dorme, nós viajamos."

"Contudo, não está ele mais atento ao seu temor do que a distinção recebida?
Pois que é morrer senão expor-se, desnudo, aos ventos e dissolver-se no sol?"

"Na profundeza de vossas esperanças e aspirações dorme vosso silencioso conhecimento do além (...) como sementes sonhando sob a neve."

"E no seu temor de procurar e recordar, desprezam todos os prazeres por medo de afugentar ou ofender o espírito.
Porém, na sua renuncia está seu prazer."

"Mas o remorso é o escurecimento da alma e não o seu castigo."

"Pois que é o mal senão o próprio bem torturado por sua fome e sede?"

"E que é o sol para os que estão de costas senão um lançador de sombras?"

"E que não haja outra finalidade na amizade a não ser o amadurecimento do espírito.
Pois o amor que procura outra coisa a não ser a revelação de seu próprio mistério não é amor."

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Tenham um bom dia! =]

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo!

Pessoas não são pertences
E a vida não é a estante
Tudo é uma grande
Mudança constante.

A realidade não pede permissão
para entrar na sua casa
Nem entra sem bater.
Ela É a casa.
Não tem para onde correr.

Quando a realidade nos cercar
E uma lição nos dar
Que não venham aqueles de fora
Que guardam pessoas numa estante
Nos culpar da nossa mudança constante.

Porque alguns sonhos já não tenho mais
Sonhos podem te fazer cantar
Do alto do céu, vendo coisas que ninguém viu.
E quem lá vai estar?

Sempre achei que os sonhos
Eram tudo o que podíamos ter
E que era nosso dever segui-los
Para ascender.

Sempre ouvi dizer que eu
Deveria me importar.
Mas eu também vi
Que não preciso me curvar.

Pois se os sonhos são meus, não eu deles
Eu devo segui-los com amor e paz.

E quando eu caí, vi que os sonhos falham.

Porque os sonhos não te dizem “isso vai passar!”
Nem conseguem te abraçar.
E não podem dizer “eu te amo”.
Então há algo maior.

O que são sonhos
Quando se tem amor?
Desnecessário adormecer.
Tudo é um sonho.

Pensei que estaria indo
Para nosso lugar secreto
Quando deixei o endereço
Nas mãos do motorista

Eu deveria agradecer
E sentir amor
Mas me senti traída
Por mim mesma.
Apostei tudo o que podia
E meu tudo não foi o suficiente.

E fui embora.

Vi meu sonho florescer
E morrer
Várias vezes
E ser vivido
Por vários
E cada vez
Mais distante.

A Bela Adormecida
A Rosa dos Espinhos
Inconsciente
Num reino parado
Onde não pretendo voltar.

Porque se ela acorda
Com um beijo de amor
Antes é preciso encontrá-lo
E onde não se encontra
Espalhá-lo.

Porque nunca se tratou
De ficar onde tem amor
Mas sim de levar
Por onde eu andar.

Já se passou tanto tempo
Que ouço os sinos de Natal
A esperança de cada ano
Para quem espera.

Para quem anda
É Natal todo dia
A noite tem estrela guia
E no coração alegria.

Feliz Ano Novo!
Porque não pretendo
Voltar ao Sonho Velho.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010



Ela sentia frio naquela noite quente. Ao mesmo tempo que tinha medo de sentir frio eterno, tinha prazer de sentir seu corpo descansando aos poucos. Ela não sabia que sensação era e não tinha ninguém para lhe explicar. Ela sabia que algo estava prestes a acontecer. E sabia que, a que ficaria, viria nem que fosse para passar a mão na sua cabeça e vê-la ainda com vida.
Mas ela não veio.

E esperançosa, foi fechando os olhos. Ela tinha certeza de que ela viria.
"Vou tirar uma soneca e vou acordar com ela me acariciando, dizendo que vai ficar tudo bem" pensou ela.
Mas ela não veio.

Estava apenas acariciando seu passado com doces lembranças e acariciando seu presente apenas por pensamentos... E o cordão da vida foi cortado. Ela foi. Ela ficou.
Feridas em lados diferentes...

E ela com a esperança de que ela virá mais tarde... Sempre mais tarde... Mesmo quando o mais tarde for tarde de mais.

Ela não entendeu como as coisas grandiosas pudessem ser reduzidas a pó, sem mais nem menos... Apenas pó. Ridículo e cruel. E ninguém havia perguntado a opinião dela sobre isso.

E a partir daí os que estavam de fora levaram o caso a sério, já que a única coisa que levam a sério é a morte. Ela é surreal! A única coisa real que ela tinha era o amor que recebera dela. E agora, viver de mentiras, risos falsos, consolos indiferentes cumprindo com seus papéis "sociais" que não socializam nada... A única coisa que tinha real por ali era a morte e a vida que partiu. E ela ficou como um ferro entre dois ímãs. Suspensa. Confusa.

Não queria escolher entre a vida e a morte, entre o amor ou a ausência dele... Ela só queria o que era real.
E o real estava agora atrás de um véu.
Esteve o tempo todo, atrás de um véu espelhado!